juntando pedaços para construir um novo pôr- de- sol porque aqui só chove
...
Olho o jasmim que roubado foi para mim, sinto o perfume que se espalha e aconchega meu quarto, ouço as lágrimas que escorrem pela face e não é fácil mas é preciso continuar, sempre em frente. A chuva que banhou meu corpo e deu vida ao jasmim não conseguiu libertar a alma que reclama um pouco de atenção, um pouco do ar do amor.
Por que chorar?
Desde o principio eu soube o que eu queria e porque eu queria, e agora não sei mais nada. Sei da saudade que aperta meu coração e devora meus dias e a única que coisa que sobra em mim é a falta dos meus, o cheiro da terra que um dia eu sem pensar deixei para trás. Hoje eu sinto que eu não soube ao que dar valor, por coisas fúteis e pessoas volúveis eu troquei minha maior riqueza que é a presença do amor verdadeiro que só a família pode oferecer. Me sinto fraca e egoísta, e gostaria de voltar o tempo e fazer outras escolhas e dizer tudo aquilo que senti e não disse. Hoje, descobri que o tudo é uma coisa só e que não sou completa porque boa parte de mim está muito longe daqui perambulando pela casa que um dia dizia ser minha.
Não cabe mais um centímetro dessa distância que só me faz voltar, não posso perder meu único bem, e me vejo criança querendo colo, querendo a proteção do irmão mais velho e sentindo o orgulho de ser a menina sob o olhar dos três mosqueteiros. Eu parti e já nem sei quantas estações passaram quando eu ainda nem me movi, estou ainda no portão abraçando minha mãe que chorava dizendo adeus. São erros no percurso, eu sinto tanto essa distância.
São anos passados que não vivi, que não vi a barriga que crescia e a vida que se iniciava, não vi os cabelos ficando grisalhos, os amores que foram esquecidos e os amores que se iniciavam, o tempo que eu não vivi me faz tanta falta. E hoje tenho em mim muita sobra da falta do tempo. Estou longe de mim, estou lá e volto ao primeiro amor que descobri ao ver tantos corações vermelhos enfeitando o convite da visita, e sou levada pela vontade de crescer. Ainda "tenho 15 anos sou morena e linda e amo e não me amam e tenho amor ainda", estou no colégio recitando Joaquim Manoel de Macedo, sou a mais apaixonada leitora. Faz sol e deitada no gramado leio Os Miseráveis, me viro e olho pela janela coberta por grades esta chovendo e na falta de sol me ponho melancólica e respiro a falta de amor, a falta dos cheiros, a falta do dialogo, a falta do compromisso, a falta de irmos na igreja aos domingos, a falta da família que me ama e me espera. Choro a falta da liberdade que abri mão ao me prender em mim, ser egoísta que sou. São dias apenas dias, horas e segundos...para ver meu leãozinho que me beija e me chama tiaaa.
E choro e me junto à chuva e juntas choramos a falta.
Aqui me falta sol. E sobra tudo o que falta.
"Só, porém, não mais livre. Abriu mão de tudo pela própria liberdade, dê mais um passo abre mão da própria liberdade e tudo te será devolvido" Jean Paul Sartre

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